Entrevista e texto original em inglês por Andrew Carten. Tradução por Larissa Brainer.

A love.fútbol encontrou com Megan e seu documentário entitulado New Generation Queens: uma história de futebol do Zanzibar enquanto procurava por histórias de impacto para compartilhar. O filme de Megan conta a história do futebol através da perspectiva de um time feminino em um dos lugares mais improváveis: Zanzibar, a parte semi-autônomo da Tanzânia, na costa leste da África, onde o futebol é rei, mas não é para mulheres jogarem. Essa é uma história sobre futebol, mas mais importante, é uma história sobre empoderamento de mulheres e a jornada para desafiar estereótipos consolidados e se expressar livremente. Megan conseguiu um tempo na ocupada agenda para responder algumas perguntas sobre o documentário e o próprio relacionamento com o futebol.

Qual é sua relação com o futebol? Você cresceu jogando ou você se interessou pelo esporte através do documentário?
 
Desde muito pequena, eu comecei a pedir a meus pais para jogar futebol e minha mãe sempre dizia para esperar até eu ter idade suficiente para jogar no time da escola. Eu fui muito persistente e quando fiz 9 anos, ela deixou. Existia um grupo local de garotos e eu entrei, apesar de alguma oposição dos meninos de 9 anos. Eles me chamavam de "a menina" por um ou dois anos. Mas jogar em um time de meninos me ensinou a ser agressiva e eu tive sorte de jogar em um time formado na maior parte por crianças de famílias imigrantes (tinha brasileiros, colombianos, um francês, etc.) Eles eram muito bons. Esse não era mundo do futebol ao qual eu seria exposta anos mais tarde na escola. Eu joguei desde então - inclusive hoje faço parte da Liga Feminina Golden Gate, em São Francisco.
 
Por que Zanzibar e por que futebol?
 
Eu conheci o New Generation Queens quando eu estava trabalhando em Zanzibar. Eu fui para o Zanzibar em 2011 para fazer um intercâmbio da faculdade - e sempre que viajo, eu tento jogar um pouco de futebol. As duas coisas que mais prevalecem na cultura Zanzibari é o futebol e o Islã, então foi fácil encontrar um jogo, mas não foi fácil achar um jogo feminino. Eu comecei a perguntar sobre se as mulheres jogavam futebol no Zanzibar e eventualmente alguém sabia sobre o New Generation Queens (Rainhas da Nova Geração). Quando eu finalmente as encontrei (elas treinam em um campo no complexo prisional de Zanzibar, não muito fácil de localizar) foi amor à primeira vista. Eu me integrei com o time de uma forma que raramente acontece interculturalmente (especialmente com as dinâmicas de poder que vêm com o fato de ser uma americana na África sub-saariana). Eu desenvolvi algumas amizades verdadeiras com jogadoras e as histórias delas eram muito fortes, assim como a transformação visual que eu via todo dia quando elas apareciam para o treino cobertas (algumas, não todas) e tiravam os hijabs (véus) para exibir os uniformes e personalidades, que eu não via em nenhum outro lugar em Zanzibar. 
 
O New Generation Queens está junto desde 2007-08 e elas são a segunda "geração" de time feminino no Zanzibar. O futebol feminino no Zanzibar começou em 1988, quando um time Sueco, Tyreso, viajou pela África. Quando estiveram em Zanzibar não tinham nenhum time com quem jogar, porque não havia futebol feminino na ilha. Se as mulheres jogavam, era só enquanto eram crianças, na rua. A Associação de Futebol do Zanzibar juntou todas as "mulheres atletas" na ilha, incluindo Nasra Mohammend que era uma estrela de badminton. O time perdeu de 16-0, mas descreveram isso como um milagre porque tiveram a chance de jogar em público. Porque elas tiveram permissão para jogar em público naquele momento, elas aproveitaram a oportunidade para formar um time. O primeiro time foi chamado "Guerreiras" e Nasra foi a treinadora. Quando ela foi convidada para a Seleção da Tanzânia, o "Guerreiras" se desfez. Mas logo depois, as jogadoras se reagruparam como o "New Generation Queens". Ao longo dos anos, houve tentativas de formar alguns outros times e às vezes até conseguia-se o suficiente para montar uma liga, mas foi esse único time (primeiro como "Guerreiras", hoje NGQ) que sempre dominou. 
 
Fala um pouco sobre o NGQ. Há quanto tempo estão juntas? De onde são? O que as motiva a jogar? Tem alguma jogadora que se destaca? Qual o estilo de jogo delas? 
 
Quando o NGQ era o único time feminino na ilha (era assim quando as conheci, em 2011) elas jogavam sempre contra times masculinos e desenvolveram um estilo agressivo de jogo para se adaptar as condições difíceis e aos oponentes homens. A melhor jogadora se chama Sabaha, que é conhecida como Messi porque ela é canhota e bem habilidosa. Elas é filha de dois professores do Alcorão e quer ensinar religião também quando parar de jogar bola. Mas por enquanto Messi mira a seleção da Tanzânia. 
 
Como tem sido a resposta da comunidade para o documentário? Existe um preconceito forte contra as meninas por elas jogarem ou os pontos de vista atenuaram com o tempo?
 
O filme será lançado em Zanzibar este mês. Será no Festival Internacional de Cinema de Zanzibar, no dia 23, e eu estou trabalhando com o Festival, junto a Save The Children, Coaches Across Continents e os conselhos de esportes locais para exibirem em áreas rurais, acompanhado de treinamentos e oficinas para garotas e treinadoras. Espero que o filme tenha um impacto nas crenças culturais sobre futebol feminino. Quase todo mundo lá me falou que "a maioria dos Zanzibaris vê o futebol feminino como imoral" mas, logo depois, me disseram que pessoalmente não se opõem. Então, acho que é um bom momento para uma mudança de cultura. Ainda há alguns crentes convictos mas penso que a maioria está pronta para se abrir para o futebol feminino. Também gostaria que o filme desse às garotas mais novas a ideia e a confiança para jogar futebol - que isso é uma opção e algo que pode trazer muita alegria.
 
Alguma lição importante ou momento especial que você tira dessa experiência? O que você quer que o público em geral perceba com o seu documentário?
 
A mensagem que NGQ me pediu para compartilhar/enfatizar é que a crença de que é possível ser mulher, muçulmana e jogadora de futebol - que essas identidades não são excludentes.

Eu acho que as pessoas, inclusive as pessoas de Zanzibar podem aprender com essa mensagem. Ela nos ajuda a aprofundar nosso entendimento da África e do Islã. É tão raro a mídia cobrir histórias da África que não sejam sobre crise e pobreza. Mais raramente ainda elas são contadas aos africanos, deixam de lado as mulheres africanas - ou as mulheres muçulmanas. Essas vozes merecem ser ouvidas e a mensagem delas é de inclusão, empoderamento e compromisso com o esporte e a religião. Eu espero que o público se interesse pela região, que as visões dele da África sejam mais complexas e que tenham respeito e admiração pelo NGQ.


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