por Rodrigo Édipo*

para João Carlos (Jota), Lucia Cabral e Ellen Sluis

"O segredo da realização dos sonhos são os conspiradores.

Conspiradores - aqueles que, juntos, respiram o mesmo ar"

(Rubem Alves)

Uma comunidade inteira transformada em um espaço livre a céu aberto. Onde adultos e crianças em sinergia realizam muito mais do que a nossa consciência é capaz de alcançar. Nesse lugar, inexiste paredes entre comunidade, escolas, organizações sociais, políticas e da lei. Vive-se a toda hora e em todo lugar… no campo de futebol, no fiteiro, na mesa de sinuca, na lanchonete, nas oficinas de carro, na garupa de um mototaxista, nas praças, nos becos, nas vias, nas cadeiras de balanço, em cima do morro e embaixo também. Os crimes foram devastados. Conspiradores locais redescobrem rotas nunca antes percorridas, intervindo com amor nos "muros", recriando novos espaços de aprendizado. Comunidades, indivíduos e sonhos se misturam diariamente, todos eles revestidos de muita esperança e em busca de um equilíbrio interior que resgate a autoestima, a transparência, a lealdade e o amor-próprio.

Através do futebol o Complexo do Alemão pulsa.

O futebol como transformador social não é uma solução que vem dos pés habilidosos de uma criança de 7 anos. O futebol sozinho não tem o poder de salvar o mundo. Não foi a bola quem um dia cessou a guerra. Muito menos Pelé. A bola, assim como Pelé, é apenas uma boa desculpa para uma grande brincadeira coletiva. O que se aprende ali? Aprende-se a arte da convivência, da empatia, do respeito, da liberdade com limites, da autonomia com compaixão. De fato "O que importa é o que está "entre", uma coisa e outra".

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Na vida o que vale é o milagre das entrelinhas.

E a comunidade do Complexo do Alemão está repleta de entrelinhas. Uma mais bonita que a outra. É só ver agora que estão lá. Apesar dos pesares, estão lá. Firmes e fortes. E continuarão, aconteça o que acontecer. Não consegue ver? Lembro de Oscar Wilde que um dia ensinou que todos nós estamos na lama, "mas alguns sabem ver estrelas". O budismo, se não me engano, ensina que todos estamos na samsara, mas ao mesmo tempo temos uma "natureza primordial" iluminada que tudo vê. Alberto Caeiro ensinou que o essencial na verdade é "saber ver". Não basta só olhar.

Saber ver.

Por falar nisso, o Complexo do Alemão dos noticiários de TV e das redes sociais está longe daquele que um dia presenciei com meus olhos e lentes. Para mim, uma comunidade que nas entrelinhas esbanja vida e verdade. Um ato poético urbano. E é por conseguir enxergar isso que permaneço conspirando junto aos que respiram do meu mesmo ar.

A paz já está no Alemão.


* Rodrigo Édipo faz parte do movimento love.fútbol desde 2013 e participou de uma expedição ao Complexo do Alemão como fotógrafo.


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