Coletânea Joga Pra Elas - Capítulo 1 - Jéssica conta a história de Sueli
Esta é a primeira história da coletânea do Joga Pra Elas: 11 histórias, 22 mulheres e 1 time.
Idealizada por Karina Paz gerente de projetos da love.fútbol, a iniciativa nasceu do desejo de criar um espaço onde mulheres pudessem reconhecer e compartilhar as histórias umas das outras. A Coletânea Joga Pra Elas convida mulheres a contarem as trajetórias de outras mulheres, revelando redes de apoio, caminhos de resistência e conexões que muitas vezes acontecem longe dos holofotes.
Mais do que relatos individuais, esta coletânea celebra a potência do coletivo e o papel do futebol como espaço de pertencimento para meninas e mulheres dentro e fora das quatro linhas.
Nota de cuidado: Esta história traz experiências marcadas por racismo, violência, sofrimento emocional e desafios de saúde. Recomendamos a leitura com sensibilidade e respeito à trajetória compartilhada.
Quantas mulheres são responsáveis pela força que mantém uma de pé?
A história de Sueli Aparecida Norberto de Oliveira Carlos nos faz encarar as próprias cicatrizes e forças de maneira honesta. Talvez seja essa a imagem de sua história: um mosaico de momentos em que a dúvida e a incerteza são confrontadas com a imperiosa vontade de viver (e não apenas sobreviver à vida). A força, a fé e a ação (quase) invisível das mulheres que cruzaram os caminhos de Sueli fazem desta história um espelho.
Ainda criança, o mundo se apressou em apresentar a Sueli sua face mais dura. Antes de se entender por si, a violência a nomeou. Sua pele negra retinta, seus cabelos crespos e sua condição financeira restrita eram usadas na escola como justificativas para a hostilidade. Sueli era apenas uma criança, mas já sentia que seu foco deveria morar em outros lugares. O esporte, em suas variadas modalidades, sempre foi uma residência mais segura. Ser boa e estar em movimento, silenciava todo racismo, toda limitação imposta pela escassez.
A vida, no entanto, tinha planos desafiadores à Sueli. Aos 12 anos, numa descida do ônibus a caminho da escola, Sueli foi atropelada. Talvez fosse essa a materialização e o prenúncio de uma vida que a surpreenderia constantemente, mas a encontraria sempre disposta a se reerguer. O acidente resultou em três meses de internação (custeados pelos empregadores de sua mãe), em um ano escolar interrompido, mas uma vontade intacta de continuar. Efigênia, mãe de Sueli, possuía poucos recursos para estimular os estudos dos filhos. Foi assim que, ao final do ensino fundamental, Sueli ouviu que dali em diante não seria possível seguir. Sabemos que o “não” é educador, nos ensina limites e nos prepara para a vida, mas ninguém pode mensurar a dor de uma mãe que diz “não” movida pela impossibilidade. Efigênia ajudou enquanto foi possível.
Sueli, no entanto, não se conformava com o final tão prematuro de seus estudos. Sua angústia encontrou colo em Marilda Avelar, sua colega de sala, que, comovida com a história, decidiu custear o valor da matrícula da menina. Efigênia e Marilda atravessaram o caminho de Sueli mostrando que força não é medida em cifrão, mas no apoio dado de acordo com suas próprias possibilidades.
Os estudos seguiram desafiadores, mas nutridos de muito desejo de crescimento. A conclusão do ensino médio e a profissionalização no Magistério foram, para Sueli, a prova de que o ensino é tão possível quanto transformador. A graduação era seu próximo passo. Agora com seus 20 anos, Sueli era uma jovem casada e com sua primogênita Nicolle nos braços. Estudar sendo mãe impunha muitos desafios, mas tudo corria bem. Enquanto Sueli se organizava entre faculdade e trabalho, a filha tinha o cuidado alternado entre a família materna e paterna.
Com outros planos, a vida reservou à Sueli uma nova rota. Em meio aos estudos e rotina com a família, Sueli adoeceu. Uma febre alta e inexplicável a lançou para uma sequência exaustiva de consultas e exames que não apresentavam diagnóstico conclusivo. As suspeitas giravam em torno de uma doença autoimune que dificultava o consenso dos especialistas. Sua saúde física deixou em aberto uma série de perguntas e se tornou foco constante do seu cuidado desde então.
Mas a vida, imperiosa, precisava seguir. A chegada do segundo filho, o pequeno Arthur, marcou o início de uma nova fase em sua caminhada. O casamento passava por instabilidades e desconfianças quando Sueli se deu conta da infidelidade do parceiro. Ali, a relação havia encontrado seu fim e a vida havia lhe dado mais um golpe certeiro. No saldo da experiência, Sueli sentiu esta dor como ainda maior do que as outras. A dor de ser enganada, exposta e desconsiderada trouxe à tona feridas difíceis de suportar.
Sueli perdia o fôlego ao tentar entender sua situação atual: uma doença com diagnóstico indefinido, dois filhos para criar e o sentimento dilacerante de encerrar um casamento de doze anos. O tempo se encarregou de sedimentar toda angústia e colocar a vagar sua dor. Certo dia, Sueli colocou nos ombros seus pensamentos e caminhou sem rumo pela rodovia. Sua intenção vagava por lugares sombrios de desesperança enquanto os barulhos dos carros em alta velocidade iam aos poucos construindo uma ideia. Ao perceber a aproximação de uma carreta, Sueli congelou. O coração acelerado, o pensamento fixo, os olhos atentos. A vida, dessa vez, decidiu surpreendê-la de forma diferente. Estampada na dianteira da carreta estava Nossa Senhora Aparecida pousando seu olhar sobre Sueli, sua fiel devota. Paralisada, acompanhou apenas com os olhos a carreta passar e se afastar no horizonte. Foi preciso um tempo para assimilar o que tinha acontecido, mas, ainda atormentada pela angústia, Sueli seguiu pela rodovia.
Ela caminhou até um lugar onde acreditou que ninguém a encontraria. O quão angustiada deve estar alguém para, em um momento de tanta dor, desejar a solidão? Chegando em seu reduto, Sueli se deparou com uma árvore alta cuja placa pregada no topo a lembraria de seu propósito: “Deus é amor maior”. Novamente paralisada, com os olhos já cansados de chorar, Sueli decidiu que aquele não seria o fim. Reuniu suas forças, ainda que poucas, e buscou colo.
Seu refúgio tinha nome: Valquíria Carvalho. Uma amiga que abriu as portas de casa para que Sueli passasse aquela noite reordenando suas ideias. O momento mais turbulento de sua vida foi acolhido e abraçado por mulheres. Dentre elas, Elizabeth Eliazar, querida amiga, e Irmã Natalícia, irmã de caridade, que se prontificaram a escutar e orientar Sueli na travessia da névoa que enfrentava.
O cuidado com a saúde levou Suelí de profissional em profissional até a Dra Christiane Reis. E aqui, o cuidado, a ciência e a escuta que só uma mulher pode oferecer à outra, trouxeram um alívio. O empenho da Dra Cristiane foi fundamental para que Sueli se conectasse aos medicamentos e especialistas corretos.
A investigação proposta era detalhada e rastreava todo foco possível de manifestação da doença desconhecida. Tal rastreio resultou na chegada dos exames dos pulmões acompanhados de um outro baque: tumores no esôfago, no pulmão direito e pneumomediastino (presença anormal de ar no tórax). O mundo parou de girar.
Sueli mal teve tempo de pensar e já se encontrava no hospital, preparada para novas avaliações. Muitos questionamentos passeavam pela cabeça, mas nenhum deles abalava a fé que sempre teve em Deus. O ambiente era de incertezas, a equipe médica se agitava enquanto analisava, confusa, mais uma vez os exames. Diante da equipe foi se desenhando uma conclusão: os exames de Sueli não correspondiam à sua realidade porque não eram seus.
Em meio a entrega dos resultados, os exames se misturaram e chegaram aos pacientes errados. Entre o diagnóstico equivocado de câncer e o esclarecimento dos resultados, Sueli viveu três dias de profunda angústia por não saber os rumos do próprio destino. Mas é bom resgatar: se a vida estava disposta a surpreender, Sueli estava disposta a se reerguer todas as vezes.
Os dias, entretanto, não pareciam mais fáceis. O isolamento e a depressão mantiveram Sueli em casa, minando aos poucos toda energia que antes a mantinha sonhadora e vibrante. Aquele momento de fragilidade, entretanto, não foi capaz de tirar do DNA de Sueli sua resiliência.
Aos 41 anos, com todas as expectativas iniciais alteradas, Sueli aceitou de peito aberto o convite das mulheres de seu bairro para uma despretensiosa peladinha de futebol no centro da cidade. O esporte, em meio às desventuras da vida, havia desaparecido, mas a paixão pelo movimento ainda estava lá. O “sim” de Sueli não a tirou apenas de casa para uma partida, a tirou do adoecimento, de um fim sem perspectivas e de um horizonte sem a luz que sempre a iluminou.
Aquela peladinha tão improvisada, ressuscitou a menina que, para além dos sofrimentos vividos, sabia que sua vida dependia do movimento. Olhar para os lados e perceber em campo a presença de mulheres com experiências tão parecidas fez Sueli entender que não era a única, tão pouco era frágil. As mulheres se reconheceram dentro das quatro linhas e rapidamente, o futebol jogado no último horário da quadra se tornou uma iniciativa que buscava apoio comunitário, voluntários para o treinamento tático e alcançava uma projeção sem precedentes no calendário de esportes da cidade.
As Galácticas, como se nomearam, marcaram desde sua criação um recomeço importante para Sueli e as demais mulheres. O campo suavizava as reviravoltas da vida e silenciava o ruído dos problemas pessoais e frustrações. “Nunca foi só futebol”, como repete Sueli, deixa claro que laços invisíveis sustentam a disposição em ir aos treinos, vestir a camisa, ganhar ou perder e, sobretudo, resistir de pé aos ventos contrários, driblando com a alegria de quem sabe de si, conhece suas fragilidades e forças.
Será possível responder quantas mulheres estiveram envolvidas para que Sueli se mantivesse de pé?
Mãe, irmãs, vizinhas, amigas, profissionais da saúde, irmãs de caridade, jogadoras, líderes comunitárias...A lista é tão extensa que, sem dúvidas, não conhecemos todas aquelas que atravessaram o percurso de Sueli até a bola. Mas uma afirmação é certa: uma mulher de pé é resultado da resiliência de muitas.
Hoje, aos 48 anos, de chuteira e meião, trajada do seu uniforme roxo das Galácticas, Sueli toca os gramados como capitã do time e dona da própria vida. Grata por todas que pavimentaram seu chão, entende que tem a oportunidade de construir lugares seguros para outras meninas e mulheres. Ao acolher e conduzir cada uma delas, Sueli abraça com ternura a pequena menina negra de cabelos crespos e a diz com firmeza que não existem limites para a fé e a força, seja no campo ou fora dele.
Sueli Aparecida Norberto de Oliveira Carlos, nascida em 1978, é mineira, mãe de Nicolle e Arthur e avó de Clarice. É graduada em Normal Superior (UNIPAC) com pós em Psicopedagogia Institucional (--) e em Gestão de Pessoas e Liderança (ISEBE). É Agente de Projetos Sociais pelo IFMG e atualmente se capacita como Treinadora pelo Flamengo FC. É presidente do Galácticas Futebol Clube, Instrutora sênior no Instituto Ramacrisna e Conselheira na mesma instituição.
Sueli acredita que seu papel no mundo é fortalecer mulheres para que se sintam capazes de conquistar seus espaços dentro ou fora das quatros linhas.
Jéssica Karoline Duarte Silva, nascida em 1995, é natural de Belo Horizonte, Minas Gerais. É bacharel em Psicologia pela PUC Minas e especializada em Relações Internacionais pela UNILA. Atua com psicologia clínica afro referenciada, intervenções corporativas sobre saúde mental no trabalho e a produção de projetos sociais que conectam cultura, cidadania e diplomacia. Jéssica acredita que saberes periféricos e minorizados figuram nuances essenciais para a construção de um cenário internacional diverso, justo e reparador.