Coletânea Joga Pra Elas - Capítulo 2 - Wand conta a história de Karina
Coletânea Joga Pra Elas - Capítulo 2 - Wand conta a história de Karina
Esta é a segunda história da coletânea do Joga Pra Elas: 11 histórias, 22 mulheres e 1 time.
Idealizada por Karina Paz gerente de projetos da love.fútbol, a iniciativa nasceu do desejo de criar um espaço onde mulheres pudessem reconhecer e compartilhar as histórias umas das outras. A Coletânea Joga Pra Elas convida mulheres a contarem as trajetórias de outras mulheres, revelando redes de apoio, caminhos de resistência e conexões que muitas vezes acontecem longe dos holofotes.
Mais do que relatos individuais, esta coletânea celebra a potência do coletivo e o papel do futebol como espaço de pertencimento para meninas e mulheres dentro e fora das quatro linhas.
Nota de cuidado: Esta história traz experiências marcadas por violência e sofrimento emocional Recomendamos a leitura com sensibilidade e respeito à trajetória compartilhada.
A CRAQUE DA COMUNIDADE
As histórias de grandes craques podem começar em muitos lugares. Numa categoria de base, numa escolinha, num campinho de bairro, numa peneira.
A de Karina Paz começa em um quintal. Eram poucos metros onde parecia caber de tudo: brincadeiras, amigos, imaginações, segurança, infância.
Isso dentro da comunidade do CSU, em Rio Doce, o bairro mais populoso de Olinda, Pernambuco. Foi ali que Karina teve a infância poupada. A mãe abria as portas de casa para as crianças brincarem, numa tentativa simples de fazer com que a filha não conhecesse a violência das ruas.
Por algum tempo, funcionou.Sem saber o tamanho do mundo, Karina viveu o que parecia ser o melhor dele.A sigla CSU significa Centro Social Urbano. Há uma certa ironia nisso. Durante muito tempo, naquele lugar, o que mais faltava era justamente o que um centro social deveria oferecer: possibilidades.
Por isso, não demorou para o quintal ficar vazio. Ainda no início da adolescência, Karina conheceu a perda. Os amigos foram desaparecendo daquele lugar mágico. Os meninos, recrutados pelo tráfico. Às meninas, restava a sexualização precoce e o início antecipado da vida adulta.
Depois, Karina perderia a própria liberdade.
Aos 13 anos, iniciou uma relação com um homem dez anos mais velho. Aos 19, casou. Até os 26, conheceu todos os tipos de violência que, até então, lhe haviam sido poupados: sexual, física, psicológica, moral, patrimonial. Gastou tempo demais calculando como sair viva daquela história.
Por pouco, não perdeu a coragem. Mas algumas coisas resistem. E essa coragem a fez dar um jeito.
Quando finalmente se desvinculou do casamento, parecia ter perdido tudo: casa, carro,
estabilidade, companhias, dogmas e convenções. Restava quase nada. Precisou recomeçar. Dentro do vazio, que para qualquer outra pessoa poderia significar absoluto desespero, descobriu a sensação de transformar o próprio corpo e a própria mente em uma folha em branco. E, para quem passou tanto tempo sendo conduzida por regras alheias, só poderia parecer liberdade. Ela podia, pela primeira vez, fazer o que quisesse.
Escolheu voltar para o quintal onde havia sonhado pela última vez, talvez em busca de reencontrar os sonhos que, em algum momento, foram retirados dela. Só que o quintal continuava cheio de histórias que precisavam de outro final.
Meninos e meninas da comunidade repetiam velhos roteiros. O tráfico continuava oferecendo pertencimento aos meninos. As meninas continuavam crescendo sob olhares que sexualizavam seus corpos antes mesmo que elas pudessem entender o próprio corpo.
Karina olhou para aquilo e teve uma ideia que, convenhamos, exige uma certa dose de
ousadia: mudar décadas de história começando praticamente do zero. Ela tinha pouco. Quase nada. Mas tinha esperança — e, no caso de Karina, ela parecia ter vocação. E tinha liderança. Tinha coragem. Tinha urgência. E tinha futebol. Detalhe: Karina nem sabia jogar. Assistindo a um jogo na televisão, às vezes não entendia a formação e posições dos jogadores. E parece clichê citar a velha regra do impedimento. Mas, bom, ela também não conhecia. No entanto, percebeu algo que talvez fosse mais importante do que a cor dos cartões: ela sabia olhar. Viu os poucos meninos ainda distantes do tráfico improvisando campos, traves e bolas onde fosse possível. Entendeu que havia ali uma paixão esperando por uma oportunidade.
Então entrou em campo.
Chamou criança por criança. Adolescente por adolescente. Cada um daqueles que parecia já ter o futuro definido. No boca a boca mesmo: “Vem jogar bola.” E foi jogando que começou a construir. Buscou conhecimento. Bateu em portas. Procurou financiamento. Levou o projeto para onde pudesse. Chegou a lugares onde não tinha muito para oferecer além de uma necessidade e, principalmente, um brilho nos olhos que, de tão grande, acabava abrindo portas. Muitas portas.
Em 2015 nascia o Pazear. Um projeto com nome de verbo, que significa estabelecer paz ou harmonia.
E talvez não exista nome mais ambicioso para algo nascido em uma comunidade onde a paz parecia, por vezes, um luxo. Karina transformou o esporte mais democrático do mundo em ferramenta de proteção. Entendeu que o tráfico também oferece pertencimento, autoestima, respeito e reconhecimento. Mas a bola poderia oferecer tudo isso. Com uma significativa e potente diferença: a de não cobrar uma vida em troca.
O futebol era o meio. A vida era o objetivo. E na contramão das convenções, as notícias começaram a mudar. As crianças e adolescentes da comunidade, antes vítimas frequentes da violência, estavam
vivas. Ocupadas. Jogando. Crescendo. Uma guerra estava sendo vencida. Mas Karina percebeu que ainda havia uma parte do campo que precisava de atenção: as meninas.
Nasceu o Jogadeiras - Empoderamento e Educação - talvez a mais desafiadora das tantas ousadias escritas naquela folha que, a essa altura, já estava muito longe de ser em branco. O projeto saiu das quatro linhas do CSU e chegou a meninas de outros pontos da Região Metropolitana do Recife. Ali, elas encontram futebol, claro. Mas encontram também psicologia, acompanhamento social, educação, empoderamento e, principalmente, um espaço seguro para serem quem são. Porque colocar uma menina em campo já não é fácil. Mas mais difícil é ajudá-la a desaprender tudo aquilo que o mundo já ensinou sobre seu corpo, seus limites e seu lugar.
Karina sabe. Por isso diz que esse é o trabalho mais importante que já fez. E também o mais difícil. O pacto é repetido como um mantra. Simples, embora enorme: continuarem vivas. E juntas. Grandes craques nascem de muitas formas. Nas linhas do Pazear, nascem muitas outras. E todas graças àquela que nasceu em um quintal. Hoje, talvez Karina seja muitas coisas: mãe, mulher, gestora, líder comunitária, idealizadora do Pazear, alguém que aprendeu a transformar necessidade em movimento. Mas há uma definição que parece caber melhor. Karina Paz é uma mulher que aprendeu a escrever a própria história — e decidiu não escrever sozinha. Segurou uma folha em branco e escreveu possibilidades para centenas de outras. Descobriu que liberdade não era apenas poder segurar a própria caneta. Era poder entregá-la a outras meninas e outros meninos. E deixá-los escrever.
Se Pazear é verbo, ninguém melhor do que alguém com Paz no sobrenome para conjugá-lo. E se grandes craques são aqueles que mudam o jogo, talvez a maior craque dessa comunidade nunca tenha precisado colocar a bola nos pés. Bastou colocar a própria história em jogo.