Coletânea Joga Pra Elas - Capítulo 3 - Bárbara conta a história de Adja

Esta é a terceira história da coletânea do Joga Pra Elas: 11 histórias, 22 mulheres e 1 time.

A iniciativa nasceu do desejo de criar um espaço onde mulheres pudessem reconhecer e compartilhar as histórias umas das outras. A Coletânea Joga Pra Elas convida mulheres a contarem as trajetórias de outras mulheres, revelando redes de apoio, caminhos de resistência e conexões que muitas vezes acontecem longe dos holofotes.

Mais do que relatos individuais, esta coletânea celebra a potência do coletivo e o papel do futebol como espaço de pertencimento para meninas e mulheres dentro e fora das quatro linhas.

Quando sonhar é também abrir caminhos

Imagine um universo em que você seja uma atleta profissional de futebol. Na sua história, você viajou o mundo jogando bola e até participou da seleção brasileira, como sempre sonhou. Você dá autógrafos, é referência para outras crianças e também para outras mulheres que são apaixonadas pelo esporte. É um universo incrível, né?! Parece até um sonho!
Até porque, de verdade, quem nunca sonhou em ser uma jogadora de futebol? Todo mundo que é apaixonado pelo esporte, em algum momento, já se imaginou batendo um pênalti decisivo ou levantando uma taça de Copa do Mundo. Adja não seria diferente.


Quando você a vê caminhando na beirada do campo, com toda a organização e seriedade que ela tem, talvez você não imagine o caminho que a fez chegar até ali. Se você não a conhece, eu te conto agora porque a sua função, em linhas gerais, é ser uma das pessoas dos bastidores que faz com que a nossa experiência com o futebol, vendo de casa ou dentro do estádio, seja tão legal. Desde os jogadores que são registrados no sistema e ficam disponíveis para as partidas, até onde cada pessoa da imprensa deve ficar para evitar tumultos. Você poderia não saber, mas tinha um dedinho de Adja ali.


Para a gente entender como ela chegou até ali, precisamos voltar no tempo para uma casa, em plena Bomba do Hemetério, no subúrbio de Recife. Ali, a pequena Adja brincava na rua de futebol com os meninos e amava tanto aquele esporte que queria transformá-lo em profissão. Mas, há uma diferença grande entre o sonho e a realidade.


Lembra daquele sonho de ser uma jogadora profissional? Bom, talvez ele tenha nascido nessas mesmas ruas da Bomba do Hemetério igualzinho ao sentimento que floresce em tantas e tantas crianças pelo Brasil e pelo Mundo. Ou talvez tenha acontecido na imensa vontade de ocupar os espaços que, no fundo, ela sabia que todos poderiam ser seus. Era um mundo distante, mas que parecia tão familiar que ela se sentia em casa.

Foi assim quando colocou uma chuteira e foi ao Santa Cruz, clube perto de casa, para perguntar se tinha alguma vaga para jogar. Jogou no Santa Cruz, no Sport e deu os seus primeiros passos na Comunicação. O amor pelo futebol estava ali, sabe? Mas o destino, às vezes, muda a rota dos nossos sonhos e a gente passa a sonhar com algo que nem sabia que era possível.

O pensamento e a felicidade daquela menina que jogava bola e se destacava nas ruas da Bomba do Hemetério, deu lugar a uma pessoa que cuidava de quem jogava futebol. Com os conhecimentos jornalísticos, Adja pôde trabalhar em duas das três equipes da capital pernambucana: Náutico e Sport. Em ambas, fez o trabalho de produção e assessoria de imprensa, tanto no futebol masculino como no futebol de mulheres, a sua paixão

Como seria possível uma pessoa que esteve dentro das quadras não torcer, vibrar e querer o melhor para mulheres no esporte? O futebol feminino, neste contexto, é um espelho. Um espelho do que poderia ter sido um destino ou um reflexo de outro caminho que esse mesmo destino encontrou.

Ou seja, a menina que sonhava em adentrar aos campos, viajar e viver do futebol… Chegou lá. Mas, de outro jeito. E talvez essa seja a maior lição que podemos tirar da história de Adja porque não é sobre abrir mão de um sonho, mas é sonhar de um jeito diferente.

Sonhar não custa nada e, por isso, ela chegou tão alto. Porque os seus sonhos se transformaram em objetivos e, com muito foco e persistência, foi possível chegar a maior máxima para uma jogadora de futebol: ajudar a família. Não foi dentro do campo, mas foi pelo esporte que ela conseguiu retirar a sua família de uma casa sem estrutura, cuidar da mãe e da avó e entregar, para as duas, uma vida tranquila, exatamente como sonhamos para os nossos familiares.

O esporte fez uma mudança dentro dessa família, mudou o seu presente e abriu tantas possibilidades para o seu futuro que é exatamente como o ditado iorubá: exu matou um pássaro ontem com uma pedra que só jogou hoje. Com as nossas conquistas no presente, podemos, além de mudar as nossas vidas, mudar a vida dos nossos antepassados.

Há um recado importante em toda essa história: todo mundo tem a sua trajetória e o seu porquê. Cada profissional, mais ou menos conhecido, carrega no seu dia a dia cada tijolinho que foi colocado, ao longo dos anos, para que ela tivesse a vida que tem hoje. Por isso, eu te peço, encarecidamente. A partir de agora, quando você olhar para qualquer profissional à beira do campo exercendo o seu trabalho, ou melhor, quando você olhar para a Adja na beira do campo, lembre que não é apenas uma profissional ali, mas uma mulher que já foi uma menina que sonhava.

E, por sonhar, ela realiza.

Bárbara Nunes é uma criadora de conteúdo e jornalista pernambucana, que tem como foco o futebol feminino e o futebol internacional. Ao longo da sua trajetória, atuou como repórter e comentarista em partidas de futebol nacional e internacional.

Adja Andrade é uma profissional pernambucana com trajetória no futebol, atuando nas áreas de gestão, comunicação e organização esportiva. Atualmente, é gestora de futebol na FPF, supervisora de protocolo de imprensa na CBF e professora da CBF Academy.

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